NENHUM DE NÓS — “O ASTRONAUTA DE MÁRMORE”: COMO UMA VERSÃO DE BOWIE ENCONTROU UMA IDENTIDADE BRASILEIRA
Nascida quase por acaso durante as gravações de Cardume, a canção não foi planejada como grande aposta da gravadora — mas acabou transformando a trajetória do Nenhum de Nós.

Por Redação Planeta Saudade
Publicado em: 9 de setembro de 2026
Há histórias de sucesso que começam com grandes planos. A de “O Astronauta de Mármore” começou de maneira muito menos solene: com uma banda esperando o trabalho de estúdio avançar e tocando músicas que já fazia nos shows.
Entre elas estava “Starman”, de David Bowie.
O Nenhum de Nós atravessava o período de preparação de seu segundo álbum quando a ideia de gravar a canção ganhou forma. O que poderia ter permanecido como um cover acabou tomando outro caminho. Thedy Corrêa, Carlos Stein e Sady Homrich decidiram construir uma nova letra em português — não uma tradução literal — preservando uma conexão com o universo espacial criado por David Bowie.
E é justamente nesse ponto que começa uma das partes menos conhecidas dessa história.
UMA LETRA BRASILEIRA QUE PRECISOU VIAJAR ATÉ DAVID BOWIE
A adaptação não foi simplesmente gravada e enviada à gravadora.
Segundo relato de Thedy Corrêa, depois de escrita a nova letra, o processo de aprovação exigiu que a versão brasileira fosse novamente vertida para o inglês e encaminhada à Inglaterra, para chegar ao próprio David Bowie. O procedimento foi demorado a ponto de atrasar o lançamento do álbum.
A importância desse episódio vai além da autorização jurídica.
A letra brasileira não reproduzia literalmente o texto de “Starman”. A banda havia criado outra narrativa a partir de referências do próprio universo de David Bowie. Thedy explicou posteriormente que alguns elementos de “O Astronauta de Mármore” dialogavam com “Ashes to Ashes”, outra composição ligada ao personagem Major Tom.
Por isso, classificá-la apenas como “versão brasileira de Starman” é correto, mas incompleto. Ela é também uma releitura autoral construída dentro de um universo que já existia na obra de David Bowie.
O DISCO QUE TINHA OUTROS PLANOS
Cardume chegou em 1989 pela BMG-Ariola. No catálogo do IMMuB, “O Astronauta de Mármore” aparece oficialmente como “Starman”, com David Bowie como autor e Thedy Corrêa, Carlos Stein e Sady Homrich creditados pela versão. A gravação traz ainda créditos específicos de guitarra para Giuseppe Frippi e violino para Alejandro Ramirez.
Mas existe uma ironia que ajuda a explicar a dimensão do fenômeno.
De acordo com Thedy Corrêa, a gravadora reuniu seu departamento de marketing para escolher cinco possíveis singles do álbum — e “O Astronauta de Mármore” não estava entre eles. A música entrou no disco, mas não nasceu com o tratamento de principal aposta comercial.
Em outro relato, Sady Homrich recordou que a gravadora trabalhava inicialmente com “Eu Caminhava” como música de trabalho. A mudança teria ocorrido depois que um locutor da Rádio Cidade, no Rio de Janeiro, colocou “O Astronauta de Mármore” no ar. Segundo o baterista, foi então que a repercussão começou a crescer.
É um detalhe revelador sobre a indústria musical daquele período: nem sempre o caminho de uma canção até o público era definido inteiramente pela gravadora. O rádio ainda podia alterar o destino de uma faixa.
“CARDUME” E O MOMENTO DE VIRADA
O segundo álbum consolidou o salto nacional do Nenhum de Nós. O site oficial da banda registra Cardume como lançado em março de 1989 e informa vendas superiores a 200 mil cópias, suficientes para garantir ao grupo seu primeiro disco de ouro.
A própria posição da faixa dentro do LP também merece atenção: “O Astronauta de Mármore” aparece como a segunda música do lado B, e não como abertura ou faixa de apresentação do álbum.
Esse percurso torna sua história ainda mais interessante. A música não foi construída para funcionar como uma reprodução brasileira de Bowie nem lançada inicialmente como a grande vitrine comercial de Cardume. Ela encontrou seu público no caminho.
QUANDO DAVID BOWIE RECONHECEU A VERSÃO
Anos depois, Thedy Corrêa relatou outro momento simbólico: durante a passagem de David Bowie pelo Brasil, o artista teria apresentado a canção ao público brasileiro reconhecendo que todos poderiam cantá-la em português. O relato foi registrado pelo próprio Thedy em entrevista.
Aqui, o cuidado editorial é importante: trata-se de um relato retrospectivo de Thedy, portanto deve ser apresentado como tal, e não como uma transcrição documental independente do episódio.
Ainda assim, há uma dimensão simbólica difícil de ignorar: a música que começou como uma experiência de estúdio havia atravessado o caminho inverso da maioria das versões. Não era apenas David Bowie chegando ao Brasil. Era uma criação brasileira retornando ao universo de seu autor original.
O QUE EXISTE ENTRE “STARMAN” E “O ASTRONAUTA DE MÁRMORE”?
A diferença está justamente na maneira como o Nenhum de Nós tratou a composição.
Em vez de tentar reproduzir palavra por palavra a narrativa original, a banda buscou referências no imaginário espacial de Bowie e construiu uma letra própria. A pesquisa para a adaptação chegou, segundo Thedy, a envolver o universo dos astronautas e outras músicas do artista.
O resultado preservou a atmosfera de estranhamento, isolamento e retorno, mas ganhou uma linguagem brasileira.
E talvez seja esse o segredo de sua permanência: a música não tentou substituir “Starman”. Encontrou outro lugar para existir.
O LEGADO DE UMA CANÇÃO QUE NÃO ESTAVA NO PLANO
Hoje, “O Astronauta de Mármore” é provavelmente uma das primeiras referências que muitos brasileiros associam ao encontro entre David Bowie e o rock nacional.
Mas sua importância não está apenas na popularidade.
Ela registra um momento particular da música brasileira: o rádio ainda tinha força suficiente para transformar uma faixa não escolhida como single em um acontecimento nacional; uma banda gaúcha podia dialogar diretamente com uma das figuras mais sofisticadas da música britânica; e uma adaptação podia ganhar legitimidade sem abandonar sua própria identidade.
No catálogo oficial do Nenhum de Nós, a canção continua entre os grandes marcos de Cardume, álbum que representa uma das principais viradas comerciais da história do grupo.
O ASTRONAUTA DE MÁRMORE FAZ PARTE DO REPERTÓRIO MÚSICAL DA RÁDIO PLANETA SAUDADE
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A ficha do LP original registra Giuseppe Frippi na guitarra e Alejandro Ramirez no violino especificamente em “O Astronauta de Mármore”. São créditos que aparecem com frequência fora das versões mais resumidas da história da música.
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A trajetória de “O Astronauta de Mármore” também abre outra porta: a história das versões brasileiras que não apenas traduziram sucessos estrangeiros, mas reconstruíram suas narrativas e passaram a ocupar um espaço próprio na memória musical do país.
🎧 OUÇA A TRILHA SONORA DESTA HISTÓRIA
Depois de conhecer esse percurso, vale reencontrar “O Astronauta de Mármore” novamente. Não apenas como uma versão de David Bowie, mas como uma criação brasileira que precisou atravessar estúdio, gravadora, aprovação internacional e rádio até encontrar seu público.
É quando a música muda de perspectiva: primeiro conhecemos a canção; depois descobrimos a história que existe por trás dela.
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