POR ONDE ANDA? — NIKKA COSTA: TRÊS VIDAS MUSICAIS DE UMA MESMA ARTISTA

0
Nikka

Aos nove anos, ela conquistou a Europa com “(Out Here) On My Own”. Depois, desapareceu dos holofotes, mudou-se para a Austrália, aprendeu novamente a ser compositora e voltou adulta sem aceitar viver prisioneira do próprio passado

Por Redação Planeta Saudade
Publicado em: 8 de setembro de 2026

Existem artistas que desaparecem porque o sucesso acaba.

E existem aqueles que desaparecem porque precisam descobrir quem são depois que o sucesso deixa de dizer quem eles deveriam ser.

Nikka Costa pertence à segunda categoria.

Para uma geração, seu rosto continua associado à imagem de uma menina de nove anos cantando “(Out Here) On My Own”, uma canção originalmente escrita por Michael Gore e Lesley Gore para Fame. Em 1981, aquela voz infantil atravessou fronteiras, levou o single ao topo das paradas em vários mercados europeus e transformou Nikka em uma celebridade internacional antes mesmo que ela tivesse idade para compreender completamente o que aquilo significava.

Mas existe uma história muito maior escondida depois daquele disco.

Uma história sobre herança musical, luto, afastamento, reconstrução, Austrália, bandas pequenas, composição, maternidade, soul, funk e uma artista que passou décadas tentando fazer uma coisa aparentemente simples:

deixar de ser lembrada apenas como a menina de “On My Own”.

É por isso que a trajetória de Nikka Costa pode ser entendida em três vidas musicais.

A primeira foi recebida.

A segunda precisou ser reconstruída.

A terceira foi escolhida.

A filha de Don Costa

Antes de ser Nikka Costa, a menina era Domenica Costa.

Nascida em Tóquio, em 1972, filha de Don Costa e de sua esposa, ela cresceu em uma família para a qual música não era uma profissão distante, mas parte da rotina doméstica.

Don Costa era arranjador, produtor, maestro e guitarrista, conhecido por trabalhos com artistas como Frank Sinatra, Paul Anka, Sammy Davis Jr. e Sarah Vaughan. Sinatra tinha uma relação particularmente próxima com a família e chegou a ser padrinho de Nikka.

Esse detalhe muda a maneira como sua infância pode ser compreendida.

Nikka não foi simplesmente uma criança descoberta por uma gravadora.

Ela nasceu dentro de um ambiente profissional de altíssimo nível.

Ainda pequena, frequentava estúdios e convivia com músicos que, para o público, eram nomes gigantes da indústria. Em entrevista à Vanity Fair Italia, décadas depois, ela lembraria os aviões, os hotéis, os bichos de pelúcia e a intensidade das viagens que acompanhavam aquela vida.

Aos nove anos, entretanto, o tamanho daquele mundo ficou impossível de ignorar.

A noite em Verona que mudou tudo

O verão de 1981 marcou a explosão.

Durante a final do Festivalbar, na Arena de Verona, uma menina de nove anos subiu ao palco acompanhada pelo próprio pai.

A apresentação de “(Out Here) On My Own” provocou uma reação enorme.

A música vinha de Fame, filme que havia transformado Irene Cara em uma das vozes mais conhecidas do começo daquela década. Nikka não tentou simplesmente copiar a gravação original. Sua interpretação trouxe para a canção uma combinação incomum: fragilidade infantil e uma segurança vocal que parecia pertencer a alguém muito mais velho.

O single chegou ao primeiro lugar na Itália e alcançou o topo ou posições muito altas em diversos mercados europeus. O álbum Nikka Costa, lançado em 1981 pela CGD, também ultrapassou 200 mil cópias somente na Itália e havia chegado a aproximadamente 1,5 milhão de exemplares no mundo até setembro de 1982, segundo registro contemporâneo citado em fontes discográficas.

Era um fenômeno.

E havia uma particularidade importante nos créditos daquele fenômeno: Don Costa estava diretamente envolvido na construção musical da filha.

Ele aparece como arranjador e maestro do álbum, ao lado de outros músicos de estúdio italianos de peso. Entre os instrumentistas creditados estavam Tullio De Piscopo, Gigi Cappellotto, Sergio Farina, Giorgio Cocilovo e outros nomes importantes da música italiana de estúdio.

Ou seja: “On My Own” não era apenas uma criança cantando uma música famosa.

Era também o trabalho de uma família musical inteira.

Quando a infância virou profissão

Hoje, olhando para aquela época, Nikka não gosta necessariamente da narrativa tradicional da “criança prodígio”.

Em entrevista à la Repubblica, ela afirmou que não se via dessa maneira. Para ela, aquela era simplesmente a vida que conhecia.

Mas os relatos posteriores revelam o preço daquela rotina.

Em entrevista ao Corriere della Sera, Nikka contou que às vezes precisava acordar durante a noite para encontrar momentos que ainda parecessem pertencer a uma criança. Ela lembrava dos amigos do pai, dos músicos e produtores que faziam parte de seu cotidiano e da sensação de que talvez fosse jovem demais para continuar vivendo daquela maneira.

Essa é uma das partes mais reveladoras de sua história.

Porque o problema não era necessariamente não gostar de música.

Ela gostava.

O problema era descobrir se ainda poderia ser criança dentro de uma vida profissional que havia começado cedo demais.

E então aconteceu a ruptura que mudaria tudo.

1983: o fim da primeira vida

Don Costa morreu em 1983, aos 57 anos.

Nikka tinha apenas dez anos.

A morte do pai não representou somente a perda de uma figura familiar. Significou também a perda da pessoa que havia estado no centro de sua formação musical.

A carreira infantil, que parecia pronta para continuar, entrou em suspensão.

Nikka gravou Fairy Tales naquele período, mas depois passou anos afastada das gravações.

A menina que havia sido levada aos palcos internacionais simplesmente deixou de existir para o mercado.

E, em vez de tentar reconstruí-la imediatamente, Nikka voltou para uma vida mais próxima da normalidade.

Foi o primeiro desaparecimento.

A segunda vida começou do outro lado do mundo

Quando voltou à música, Nikka já não era a criança que o público conhecera.

Here I Am… Yes, It’s Me, de 1989, marcou uma primeira tentativa de retorno.

Mas seria na Austrália que aconteceria a transformação realmente importante.

Depois de se casar com o músico e produtor australiano Justin Stanley, Nikka mudou-se para o país e começou a escrever suas próprias canções.

O processo foi quase artesanal.

Ela precisou aprender a tocar melhor, compor, tocar ao vivo e enfrentar um público que não estava interessado em tratá-la como uma antiga celebridade infantil.

Sua primeira banda australiana foi Little Mona & the Shag Daddies, um projeto que ela mesma descreveu como “happy funk”. A experiência durou apenas quatro apresentações em Sydney.

Depois veio Sugarbone.

A banda excursionou pela Austrália e, segundo a própria Nikka, aquela experiência foi assustadora inicialmente — mas ajudou a reconstruir sua confiança.

É um capítulo pouco conhecido fora das biografias mais detalhadas.

Mas ele talvez seja a chave de toda a carreira adulta.

Porque Nikka não voltou diretamente aos grandes palcos.

Ela voltou pelos pequenos.

Primeiro vieram quatro shows.

Depois uma banda.

Depois pequenas turnês.

Depois músicas próprias.

E somente então surgiu um novo contrato.

“Butterfly Rocket”: aprender a ser autora

Em 1996, Nikka lançou Butterfly Rocket na Austrália pelo selo Mushroom.

O disco representa uma mudança que merece ser entendida para além da discografia.

A própria artista o descreveu posteriormente como uma espécie de “irmã mais nova” de seu trabalho seguinte e chamou aquele período de seus “anos de faculdade”, justamente porque foi quando aprendeu a viver na estrada e, principalmente, a escrever suas próprias músicas.

O álbum não precisava competir com “On My Own”.

Seu objetivo era outro.

Era provar que existia uma compositora por trás daquela antiga voz infantil.

Butterfly Rocket lhe rendeu indicação ao ARIA Music Award de artista revelação em 1996 e outra indicação, na categoria de artista feminina, no ano seguinte.

A carreira estava finalmente mudando de proprietário.

Antes, a indústria dizia quem Nikka Costa era.

Agora, Nikka começava a dizer por conta própria.

Enquanto isso, o Brasil continuava ouvindo

É nesse ponto que a história encontra uma memória particularmente brasileira.

Em 1990, Nikka apareceu no universo musical brasileiro por meio da televisão.

“Midnight” foi incluída na trilha internacional de Gente Fina, novela da TV Globo.

Mas existe outro detalhe ainda mais curioso nessa passagem pelo Brasil.

No mesmo período, Nikka participou do Festival de Sanremo cantando em inglês “All for the Love”, versão de “Vattene amore”, composição que havia sido defendida por Mietta e Amedeo Minghi.

Décadas depois, ao recordar essa participação, Nikka ainda se lembrava da emoção de cantar a música e do trabalho vocal de Mietta — embora confessasse não se lembrar de Amedeo Minghi.

É uma pequena ironia da memória musical:

para quem estava do outro lado da televisão, Nikka fazia parte da paisagem pop daquele momento.

Para ela, aquela passagem era apenas mais uma estação de uma carreira que ainda estava tentando encontrar seu destino.

A terceira Nikka

A transformação definitiva aconteceria nos Estados Unidos.

Em 2001, Everybody Got Their Something apresentou ao mercado americano uma artista praticamente nova.

Praticamente — porque Nikka já tinha vinte anos de carreira.

“Like a Feather” ajudou a estabelecer sua nova imagem. A música ganhou exposição em uma campanha publicitária da Tommy Hilfiger e contribuiu para que Nikka alcançasse uma audiência americana que não a conhecia como a criança europeia de 1981.

Era uma situação curiosa.

Aos olhos americanos, ela parecia estar surgindo.

Na realidade, estava começando sua terceira vida.

A artista que apareceu naquele momento misturava soul, funk, rock, blues e R&B com uma identidade muito mais autoral.

Vieram então Can’tneverdidnothin’ (2005), Pebble to a Pearl (2008), Nikka & Strings: Underneath and in Between (2017) e outros trabalhos que consolidaram uma carreira que já não dependia de um único momento de sua juventude.

O que mudou quando ela deixou de tentar voltar?

Talvez seja essa a pergunta mais interessante sobre Nikka Costa.

Ela poderia ter tentado reproduzir “On My Own”.

Poderia ter explorado eternamente a nostalgia da menina que havia conquistado a Europa.

Não fez isso.

Em vez disso, construiu uma carreira adulta em torno de uma música muito mais física, orgânica e ligada ao soul e ao funk.

Em 2024, ao falar sobre Dirty Disco, ela explicou que queria criar algo que oferecesse alegria em meio ao peso cotidiano e às notícias negativas. A proposta era fazer um disco que convidasse as pessoas a se libertarem por alguns minutos, dançarem e simplesmente se permitirem estar presentes.

O álbum também revela outra característica importante da artista madura.

Nikka continua trabalhando de maneira essencialmente artesanal.

Em entrevista sobre o processo de Dirty Disco, ela contou que prefere papel, pastas e escrita manual a ficar compondo pelo telefone ou por aplicativos. Segundo ela, a maneira de fazer música mudou muito menos do que a maneira de lançá-la.

É uma observação aparentemente simples.

Mas ela diz muito sobre sua trajetória.

Nikka Costa atravessou a era dos discos, dos CDs, da MTV, dos videoclipes, da publicidade televisiva, da internet, do streaming e das redes sociais.

Mas continua compondo como alguém que ainda precisa primeiro ouvir a música.

2026: ela continua aqui

A história poderia terminar em Dirty Disco.

Mas não termina.

Em 12 de junho de 2026, Nikka Costa lançou “Something ’Bout the Lonely”, seu single mais recente registrado nas plataformas digitais.

A informação é pequena.

A simbologia, não.

Porque significa que a menina de 1981 não virou apenas uma lembrança de arquivo.

Aos 54 anos, Nikka continua compondo, gravando e apresentando música.

Ela atravessou quatro décadas sem precisar permanecer presa a nenhuma delas.

E talvez seja essa a explicação para o fato de sua história continuar despertando interesse.

Nikka Costa não é simplesmente uma estrela infantil dos anos 1980 que sobreviveu.

Ela é uma artista que precisou sobreviver à própria fama infantil.

Primeiro, recebeu uma carreira.

Depois, perdeu o caminho.

Então precisou construir outro.

E, finalmente, descobriu que não precisava mais escolher entre a menina que foi e a mulher que se tornou.

As duas podem existir na mesma história.

O verdadeiro significado de “On My Own”

Há uma ironia bonita escondida na canção que iniciou tudo.

“(Out Here) On My Own” fala de estar sozinho, de procurar forças dentro de si e de aprender a caminhar sem depender de outra pessoa.

Nikka cantou essas palavras aos nove anos.

Décadas depois, sua própria biografia parece ter dado outro significado à música.

Ela precisou, literalmente, descobrir seu caminho por conta própria.

Primeiro longe do pai.

Depois longe da indústria.

Depois longe da imagem que o público havia construído para ela.

E, finalmente, dentro da própria música.

Talvez por isso ouvir “On My Own” hoje seja diferente.

Não estamos apenas ouvindo uma menina que cantava extraordinariamente bem.

Estamos ouvindo o primeiro capítulo de uma vida que ainda estava longe de terminar.

Nikka Costa não desapareceu.

Ela fez algo mais difícil:

desapareceu daquilo que esperavam que ela fosse — para descobrir quem realmente queria ser.


🎵 VOCÊ SABIA?

Nikka Costa não chegou à carreira adulta diretamente depois de abandonar a fama infantil. Na Austrália, antes de Butterfly Rocket, ela passou por duas experiências de banda pouco lembradas: Little Mona & the Shag Daddies, que realizou apenas quatro shows em Sydney, e depois Sugarbone, que excursionou pelo país. A própria cantora descreveu esse período como seus “anos de faculdade”.

📚 CONTINUE EXPLORANDO A HISTÓRIA DA MÚSICA

A história de Nikka Costa pertence a uma categoria fascinante da música popular: artistas que o público conheceu muito cedo e que precisaram construir uma segunda identidade depois que a primeira deixou de fazer sentido.

No Portal Planeta Saudade, você encontra outras histórias de canções e artistas que continuam revelando novos detalhes quando revisitadas com tempo, pesquisa e memória.

🎧 OUÇA A TRILHA SONORA DESTA HISTÓRIA

Agora, talvez valha a pena ouvir “(Out Here) On My Own” novamente.

Não apenas como a gravação de uma menina de nove anos.

Mas como o primeiro capítulo de uma carreira que atravessou infância, luto, Austrália, soul, funk, rock, televisão, publicidade, discos e streaming.

Na Rádio Planeta Saudade, os clássicos continuam encontrando novas maneiras de voltar para casa.

🌐 Site oficial: radioplanetasaudade.com.br
📱 Aplicativo oficial: Android e iPhone
💻 Web App: Android, iOS e computadores
🗣️ Alexa: “Alexa, tocar Rádio Planeta Saudade”
🚗 Android Auto e Apple CarPlay: Rádio Planeta Saudade no carro
📻 Rádios Net
🎧 CX Rádio

🌐 SOBRE O PORTAL PLANETA SAUDADE

O Portal Planeta Saudade existe para preservar a memória da música com pesquisa, contexto, responsabilidade e emoção.

Mais do que lembrar que uma música foi importante, o Portal procura explicar por que ela foi importante, quem participou de sua trajetória e quais histórias merecem continuar vivas.

Preservando a memória da música, uma história de cada vez.

#NikkaCosta #OutHereOnMyOwn #Midnight #Anos80 #PorOndeAnda #PlanetaSaudade

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *