Gary Moore — “Still Got the Blues”: a música que transformou uma inquietação em uma nova carreira

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Gary

Em 1990, um guitarrista moldado pelo rock voltou às raízes do blues — e descobriu que sua maior reinvenção poderia nascer justamente de sua própria história

Por Redação Planeta Saudade
Publicado em: 18 de setembro de 2026

Há mudanças de carreira que acontecem porque um artista deseja experimentar alguma coisa diferente. E há aquelas que acontecem porque continuar fazendo o mesmo já não parece suficiente.

A história de “Still Got the Blues” pertence à segunda categoria.

Quando Gary Moore chegou a 1990, já carregava uma trajetória que passava pelo rock, hard rock e heavy metal. Skid Row, Thin Lizzy, Colosseum II e sua carreira solo haviam construído a imagem de um guitarrista conhecido pela força, pela técnica e pela intensidade.

Mas havia outra linguagem esperando por ele.

O blues nunca havia desaparecido.

Durante o período que antecedeu Still Got the Blues, Gary Moore começou a perceber que aquele universo continuava sendo uma parte fundamental de sua identidade musical. Bob Daisley, que havia trabalhado com ele, recordou posteriormente que os dois costumavam tocar músicas dos John Mayall’s Bluesbreakers e que a ideia de fazer um disco de blues surgiu dessas conversas. Daisley conta que inicialmente imaginava apenas algumas músicas de blues naquele projeto, mas Gary Moore levou a ideia muito além.

A mudança começava a ganhar forma.


O momento em que Gary Moore parou de olhar para trás

A grande questão não era se Gary Moore sabia tocar blues.

Ele sabia.

Sua formação musical havia sido construída ouvindo e absorvendo guitarristas de blues, e sua carreira anterior já continha sinais dessa ligação. O que estava mudando era o lugar que o blues ocuparia dentro de sua obra.

Em vez de aparecer como influência dentro do rock, o blues passaria a ser o centro.

E isso aconteceria em um momento particularmente interessante: Gary Moore havia acabado de lançar After the War, em 1989, um álbum fortemente associado ao hard rock.

A mudança para o blues, portanto, não era simplesmente uma continuação natural do disco anterior.

Era uma escolha de direção.

E uma escolha arriscada.


A faixa que nasceu quase por acaso

Um dos detalhes mais extraordinários da história está na própria gravação.

Em uma entrevista retrospectiva, Gary Moore contou que “Still Got the Blues” e “Oh Pretty Woman” foram gravadas no mesmo dia, enquanto a banda estava experimentando a sala do estúdio.

Ou seja: aquilo que posteriormente se tornaria uma das gravações mais reconhecidas de Gary Moore começou em um contexto muito menos solene do que sua importância histórica poderia sugerir.

Gary Moore também afirmou que gravou “Still Got the Blues” em uma única tomada.

Segundo seu próprio relato, momentos assim aconteciam quando os músicos estavam relaxados, sem a pressão de saber que estavam registrando necessariamente uma gravação definitiva.

É uma informação pequena, mas muda a maneira de ouvir a faixa.

A intensidade que parece cuidadosamente construída nasceu, em parte, de uma situação de espontaneidade.

A guitarra não soa como alguém tentando provar alguma coisa.

Ela soa como alguém que encontrou o lugar certo para tocar.


Quando a guitarra deixa de ser demonstração e passa a ser narrativa

É aqui que “Still Got the Blues” se torna diferente de muitos trabalhos de guitarristas virtuosos.

Gary Moore tinha técnica suficiente para transformar a faixa em uma exibição de velocidade.

Não fez isso.

A música é construída sobre espaço, sustentação, dinâmica e fraseado.

A guitarra parece responder à própria voz.

E essa escolha é fundamental para compreender a transformação artística de Gary Moore: o virtuosismo não desapareceu; mudou de função.

A técnica passou a servir à narrativa emocional.

Cada bend prolongado, cada nota sustentada e cada pausa ajudam a criar a sensação de alguém tentando dizer, através do instrumento, aquilo que as palavras não conseguem completar.

É o blues como linguagem emocional — e não apenas como gênero musical.


Os músicos também contam essa história

A gravação reuniu músicos de enorme experiência.

Nicky Hopkins participa ao piano, enquanto Don Airey aparece nos teclados. Andy Pyle toca baixo, Graham Walker assume a bateria e Gavyn Wright participa com as cordas. Gary Moore responde pela voz e pelas guitarras.

Essa combinação é reveladora.

Hopkins carregava décadas de experiência como músico de estúdio em gravações fundamentais do rock britânico. Airey trazia sua experiência como tecladista ligado ao rock. As cordas acrescentavam uma dimensão quase cinematográfica à balada.

Assim, o blues de Gary Moore não era uma reconstrução arqueológica do passado.

Era um blues filtrado por tudo aquilo que ele havia aprendido no rock.


E então o disco ganhou uma dimensão ainda maior

A proposta também abriu espaço para encontros extraordinários.

Albert King e Albert Collins participaram das gravações, colocando Gary Moore ao lado de dois nomes fundamentais da tradição do blues. George Harrison também esteve ligado ao projeto.

Essa presença ajuda a entender a dimensão da transformação.

Moore não estava simplesmente levando um guitarrista de hard rock para tocar blues.

Estava estabelecendo uma ponte entre duas gerações e dois públicos musicais.

O músico que vinha do rock passava a dialogar diretamente com alguns dos artistas que haviam ajudado a formar a linguagem que ele agora colocava no centro de sua obra.


O resultado surpreendeu até o próprio mercado

Still Got the Blues foi lançado em março de 1990 e não permaneceu restrito a um público especializado.

No Reino Unido, o álbum chegou ao 13º lugar da parada oficial de álbuns e permaneceu 26 semanas no ranking.

A faixa-título também encontrou espaço entre o público britânico: alcançou o 31º lugar no Official Singles Chart.

Mas talvez o dado mais revelador esteja no que aconteceu depois.

A mudança de direção não foi um episódio isolado.

O álbum abriu caminho para uma sequência de trabalhos dedicados ao blues. After Hours, lançado em 1992, chegou ao 4º lugar no Reino Unido, superando a posição alcançada pelo próprio Still Got the Blues. Blues Alive chegou ao 8º lugar em 1993.

Ou seja: o blues não foi apenas uma experiência bem-sucedida.

Tornou-se uma nova etapa da carreira de Gary Moore.


A curiosa ligação com “Parisienne Walkways”

Há ainda uma conexão que ajuda a enxergar a história de Moore em perspectiva.

Em 1979, ele havia gravado “Parisienne Walkways”, sua parceria com Phil Lynott, uma música que já apresentava aquele Moore mais melódico, contemplativo e profundamente ligado à expressão da guitarra.

Mais de uma década depois, “Still Got the Blues” recuperaria esse lado emocional de seu trabalho.

Não era, portanto, uma personalidade musical completamente nova.

Era uma parte antiga de Gary Moore que finalmente havia encontrado espaço suficiente para ocupar o centro do palco.

Essa talvez seja a melhor maneira de compreender sua reinvenção:

Gary Moore não abandonou sua história para encontrar o blues. Ele voltou a uma parte dela.


O episódio judicial que entrou para a história da música

Há ainda um capítulo posterior que precisa ser contado com cuidado.

“Still Got the Blues” esteve envolvida em uma disputa judicial relacionada à composição “Nordrach”, da banda alemã Jud’s Gallery.

Em decisão do tribunal de Munique, houve entendimento de violação de direitos autorais relacionada ao solo de guitarra. A documentação judicial, porém, trata especificamente das semelhanças musicais apontadas naquele processo — não sustenta a simplificação de que a canção inteira teria sido copiada.

Esse cuidado é importante.

A história jurídica faz parte do legado documental da faixa, mas não deve apagar a complexidade de sua criação nem transformar uma decisão judicial sobre elementos específicos em uma conclusão maior do que o documento permite.


Quando a reinvenção virou legado

O mais impressionante em “Still Got the Blues” talvez não esteja apenas em 1990.

Está no que veio depois.

Gary Moore continuou gravando blues durante grande parte de sua carreira posterior. E as paradas britânicas mostram que aquela mudança não foi passageira: Still Got the Blues chegou ao topo da parada de Jazz & Blues em 1994 e permaneceu 80 semanas naquele ranking; Blues Alive também chegou ao número 1.

Isso ajuda a colocar a transformação em perspectiva.

O álbum não apenas apresentou uma nova faceta de Gary Moore.

Ele reorganizou a relação do artista com seu próprio repertório e com o público.

O guitarrista que havia construído sua identidade no peso descobriu que podia alcançar uma força ainda maior através da contenção.

E essa talvez seja a verdadeira razão pela qual “Still Got the Blues” continua tão poderosa.

Não é uma música sobre velocidade.

É uma música sobre permanência.

Sobre aquilo que continua dentro de nós depois que todo o resto mudou.

E, quando Gary Moore deixa a última frase da guitarra respirar, parece que a própria música responde à pergunta que seu título carrega:

algumas coisas realmente nunca deixam de ser sentidas.


🎵 Você Sabia?

Gary Moore revelou retrospectivamente que “Still Got the Blues” foi gravada em uma única tomada, durante uma sessão em que a banda também registrou “Oh Pretty Woman”. O músico explicou que esses momentos aconteciam justamente quando os músicos estavam relaxados e simplesmente experimentando o estúdio.

📚 Continue explorando a história da música

A trajetória de Gary Moore é também uma história sobre reinvenção.

Depois de conhecer o músico do hard rock, vale voltar a outras fases de sua carreira e perceber como o blues já estava presente muito antes de 1990.

🎧 Ouça a trilha sonora desta história

Agora, quando “Still Got the Blues” tocar novamente, talvez seja possível ouvi-la de outra maneira.

Não apenas como uma grande interpretação de Gary Moore.

Mas como o registro de um músico que teve coragem de mudar de direção quando poderia simplesmente continuar repetindo aquilo que já conhecia.

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Fontes e créditos de pesquisa

  • Official Charts — histórico oficial de Still Got the Blues e do single.
  • GuitarPlayer — entrevista retrospectiva de Gary Moore sobre a concepção do álbum, a sessão de gravação e a gravação em uma tomada.
  • Bob Daisley — Classic Rock interview — relato do próprio Daisley sobre a origem da ideia de fazer um disco de blues.
  • Official Charts — histórico completo de Gary Moore — trajetória posterior de After Hours, Blues Alive e demais trabalhos ligados ao blues.
  • Documentação judicial alemã — episódio envolvendo “Nordrach” e o solo de “Still Got the Blues”.

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