EMF

Por Redação Planeta Saudade
Publicado em: 21 de setembro de 2026

Há músicas que fazem sucesso.

E há músicas que, décadas depois, ainda parecem ter chegado ao mundo antes de sua própria época.

“Unbelievable”, do EMF, pertence a essa segunda categoria.

Lançada no Reino Unido em 1990, a música apareceu em um momento de transição, quando guitarras, música eletrônica, cultura de clubes e hip-hop começavam a ocupar o mesmo espaço com uma naturalidade que poucos anos antes parecia improvável.

O EMF veio de Cinderford, uma cidade do Forest of Dean, na Inglaterra. Formada em 1989, a banda ainda era muito jovem quando encontrou aquela combinação que transformaria sua trajetória.

E o mais curioso é que “Unbelievable” não nasceu de uma grande estratégia de gravadora.

Nasceu de uma bicicleta, de uma separação amorosa e de uma ideia musical que simplesmente apareceu.

Uma música que começou no caminho para casa

Ian Dench contou que estava andando de bicicleta, ainda pensando em uma garota que havia terminado o relacionamento, quando as palavras e a melodia começaram a surgir.

A situação pessoal acabou dando origem ao conceito central da música: a palavra “unbelievable” poderia carregar dois sentidos diferentes — algo extraordinário e, ao mesmo tempo, alguém que não estava sendo completamente sincero.

O riff também nasceu naquele momento.

Dench tinha formação em guitarra clássica por influência do pai, mas também gostava profundamente de blues. Segundo seu próprio relato, a guitarra de “Unbelievable” passa de uma sonoridade associada ao blues para uma construção próxima do flamenco.

Era, de certa maneira, a própria história musical de Dench condensada em poucos segundos.

James Atkin recebeu a música já praticamente formada e acrescentou o rap.

Zac Foley ajudou a construir uma das marcas mais importantes da gravação: a linha de baixo.

E esse detalhe merece atenção.

Em entrevista concedida em 2026, Dench explicou que ele e Foley inicialmente tocavam o riff juntos, em uníssono. O baixo de Zac não era apenas acompanhamento; fazia parte da própria arquitetura da música.

O EMF estava interessado naquele momento em bandas americanas que haviam absorvido elementos do hip-hop dentro do rock, especialmente Red Hot Chili Peppers e Faith No More.

Ao mesmo tempo, os integrantes ouviam Public Enemy, De La Soul, Cypress Hill e outras referências que chegavam às pistas e aos clubes britânicos.

O resultado foi uma música que não parecia querer escolher entre rock e dança.

Ela queria os dois.

Antes do sucesso, houve dúvida

Um dos episódios menos lembrados da história aconteceu antes de a música chegar às paradas.

O EMF apresentou “Unbelievable” no programa britânico Jukebox Jury, formato em que o público e convidados avaliavam novas músicas.

Segundo os integrantes, a recepção do público foi positiva, mas os convidados não demonstraram o mesmo entusiasmo.

A banda decidiu continuar.

E essa decisão foi importante.

O EMF ainda não era uma instituição internacional. Era uma banda jovem de Cinderford tentando provar que havia algo naquele som.

As gravadoras começaram a aparecer.

Virgin, Island e EMI demonstraram interesse, mas o grupo queria que os executivos fossem até o Forest of Dean para assistir às apresentações locais e conhecer o ambiente em que a banda havia surgido.

A estratégia funcionou.

A EMI contratou o grupo.

E “Unbelievable” acabou sendo a última música gravada para Schubert Dip, o álbum de estreia.

O estúdio, o chão e o ovo

A gravação aconteceu no Gooseberry Studios, em Tulse Hill, no sul de Londres.

Não era um cenário luxuoso.

Para economizar dinheiro, os integrantes dormiam no chão do próprio estúdio.

Foi nesse ambiente que aconteceu uma das histórias mais curiosas da gravação: Derry Brownson tentou cozinhar um ovo no micro-ondas.

O ovo explodiu.

O estúdio ficou com o cheiro espalhado pelo ambiente.

E ninguém parou.

A banda estava vivendo aquele momento de descoberta, acabara de conseguir um contrato e estava concentrada em terminar a música.

Os instrumentos também revelam como aquela gravação foi construída.

Os tambores foram programados. Dench e Foley tocaram guitarra e baixo. Ian já havia preparado partes de sintetizador no Yamaha CS-10 e piano no Casio FZ-1, equipamentos que também faziam parte da linguagem ao vivo do grupo.

Não era simplesmente uma banda de rock acrescentando uma batida eletrônica.

Era uma banda construindo sua própria linguagem a partir de diferentes ferramentas.

E aquela voz?

Outro elemento decisivo aparece logo no começo da música.

O famoso “Oh!” veio de uma gravação do comediante americano Andrew Dice Clay.

O problema era conseguir autorização para utilizá-lo.

A banda foi enviada a Los Angeles para compromissos relacionados à EMI e à liberação do trecho.

Em uma situação que parece improvável até hoje, Ian Dench encontrou Rick Rubin no Rainbow Bar & Grill, em Sunset Boulevard.

Rubin era justamente uma das pessoas ligadas à Def Jam, gravadora associada à gravação de Andrew Dice Clay.

Dench explicou a situação.

Rubin pediu que o grupo enviasse um fax ao escritório no dia seguinte.

A autorização veio.

E, segundo Dench, sem cobrança.

Uma pequena coincidência havia resolvido um problema que poderia ter complicado o lançamento.

A gravação quase ficou diferente

Existe ainda outro detalhe fascinante.

Antes da versão definitiva, o EMF fez uma gravação doméstica de “Unbelievable”.

Nela, é possível ouvir amigos conversando e brincando ao fundo.

Quando chegaram ao vocal definitivo, James Atkin fez apenas duas tomadas.

A primeira foi escolhida.

Isso ajuda a entender uma característica que o próprio grupo reconhece quando fala da música: havia nela uma energia espontânea que não precisava ser excessivamente polida.

A intenção era preservar a sensação de que a banda estava tocando aquilo ao vivo.

O momento em que o hip-hop entrou definitivamente na história

Hoje é fácil ouvir “Unbelievable” e aceitar sua mistura como algo normal.

Em 1990, não era tão simples.

O próprio EMF reconhecia que estava absorvendo referências que vinham do hip-hop americano, da música eletrônica, do acid house e da cultura dos clubes britânicos.

A imprensa americana também percebeu isso rapidamente.

Em julho de 1991, quando a música estava no topo da Billboard, o Washington Post descreveu o EMF como parte de uma nova geração britânica que combinava técnicas eletrônicas associadas a house e hip-hop com guitarra, baixo e bateria de rock.

Esse registro é importante porque mostra que a mistura não foi uma interpretação criada décadas depois.

Ela já era percebida naquele momento.

E havia outro elo particularmente interessante.

Em 2026, James Atkin lembrou que o EMF ficou extremamente feliz quando Afrika Bambaataa remixou “Unbelievable”.

Para Atkin, aquela versão continua sendo sua favorita.

É um detalhe que ajuda a dimensionar a relação da banda com a cultura hip-hop: não se tratava apenas de utilizar elementos sonoros daquela linguagem, mas de admirar seus principais criadores.

Quando a Inglaterra disse “3” e a América disse “1”

No Reino Unido, “Unbelievable” alcançou o 3º lugar da Official Singles Chart e permaneceu 13 semanas no ranking.

Não chegou ao primeiro lugar.

Nos Estados Unidos, porém, a história tomou outra proporção.

A música entrou na Billboard Hot 100 em abril de 1991 e alcançou o 1º lugar em 20 de julho daquele ano, permanecendo 23 semanas na parada.

Também chegou ao 3º lugar da parada de Modern Rock e ao 4º lugar no ranking de audiência da Hot 100 Airplay.

O álbum Schubert Dip chegou ao 3º lugar no Reino Unido e permaneceu 19 semanas na parada britânica.

A imprensa americana registrou o choque dos próprios integrantes diante da velocidade daquela transformação.

Meses antes, eles viajavam em vans e ficavam em hotéis baratos.

De repente, estavam fazendo uma turnê de seis semanas com ingressos esgotados pelos Estados Unidos.

O sonho havia acontecido.

E, como o próprio Dench reconheceu posteriormente, o sucesso também trouxe uma consequência inesperada: o mundo inteiro passou a ter opiniões sobre uma banda que até pouco antes pertencia apenas àquele pequeno círculo de Cinderford.

O EMF não foi apenas “Unbelievable”

Essa é talvez uma das correções mais importantes que uma matéria sobre a banda precisa fazer.

Depois de “Unbelievable”, veio “I Believe”, que chegou ao 6º lugar no Reino Unido.

“Children” alcançou o 19º.

“Lies” chegou ao 28º.

Schubert Dip foi ao 3º lugar.

E em 1992 o EP Unexplained alcançou o 18º lugar.

Em 1995, “I’m a Believer”, a versão do EMF para a música dos Monkees, chegou ao 3º lugar britânico.

Portanto, a trajetória comercial do grupo não pode ser resumida a uma única música.

“Unbelievable” foi o fenômeno que abriu a porta.

Mas havia uma banda inteira trabalhando atrás dela.

O que aconteceu depois?

O EMF lançou Stigma em 1992 e Cha Cha Cha em 1995.

A linguagem musical mudou.

A banda também mudou.

E, depois de 1995, os integrantes seguiram caminhos diferentes.

O grupo passou por períodos de afastamento e reencontro.

Em 2001, houve uma reunião para apresentações relacionadas à compilação The Best of EMF: Epsom Mad Funkers.

Pouco depois, veio uma perda devastadora: Zac Foley morreu em 2002.

Sua importância para “Unbelievable”, entretanto, permanece registrada pelos próprios companheiros.

Quando Dench fala da música atualmente, fala também de Zac e da linha de baixo que ajudou a definir a gravação.

Vinte e sete anos depois

O intervalo entre Cha Cha Cha, de 1995, e Go Go Sapiens, de 2022, foi enorme.

A própria banda destaca oficialmente que foram 27 anos sem um novo álbum de estúdio.

Mas o retorno não foi apenas uma tentativa de reproduzir o passado.

James Atkin e Ian Dench voltaram a escrever juntos.

Go Go Sapiens abriu uma nova fase.

E em 2024 veio The Beauty and the Chaos, o quinto álbum de estúdio do EMF.

Há um detalhe extraordinário nessa retomada: Ralph Jezzard, produtor dos dois primeiros álbuns e do EP da fase inicial, voltou a produzir o novo disco.

Ou seja, uma parte do passado voltou a participar diretamente da construção do presente.

“Reach for the Lasers”: a mesma inquietação, outra época

Em 2024, o EMF também lançou “Reach for the Lasers”.

A própria banda descreve a música como uma celebração da pista de dança e destaca a combinação entre a música eletrônica associada a James Atkin e as guitarras indie de Ian Dench.

A conexão com “Unbelievable” é evidente sem precisar forçá-la.

Trinta e tantos anos depois, o EMF continua trabalhando justamente na fronteira entre guitarras, música eletrônica e cultura de dança.

Até mesmo uma nova versão de “Unbelievable”, remixada por Gaudi e Don Letts, foi lançada dentro desse ciclo recente.

A música não ficou apenas no passado.

Ela voltou a ser reinterpretada pelo próprio grupo.

Cinderford ainda está na história

Em 18 de março de 2025, o EMF voltou a Cinderford para receber uma blue plaque comemorativa no centro da cidade.

É uma homenagem particularmente significativa.

A banda que saiu de uma pequena cidade inglesa e chegou ao topo da Billboard voltou décadas depois ao ponto de origem.

A placa transforma uma trajetória musical em memória local.

E talvez seja justamente isso que melhor explique o percurso do EMF.

Antes de existir como fenômeno internacional, existia uma banda.

Antes de existir a Billboard, existia Cinderford.

Antes do contrato, existiam ensaios.

Antes da fama, existia uma música surgindo na cabeça de Ian Dench enquanto ele pedalava para casa.

E o EMF ainda está ativo em 2026?

Sim.

E essa confirmação merece ser feita com dados atuais, não apenas com referências antigas.

O site oficial do grupo mantém agenda de apresentações em 2026 e anunciou uma nova etapa europeia da turnê de 35 anos de Schubert Dip, com apresentações previstas para Amsterdam, Berlim, Colônia, Sint-Niklaas e Paris entre 30 de novembro e 4 de dezembro de 2026.

Registros de apresentações de 2026 também mostram “Unbelievable” ainda presente no repertório ao vivo, inclusive em shows realizados em julho e agosto.

Há ainda apresentações futuras registradas para novembro de 2026 e maio de 2027.

Mas 2026 também trouxe uma perda importante.

Em 14 de agosto, o EMF anunciou oficialmente a morte de Derry Brownson.

No comunicado, os companheiros lembraram que Derry ainda havia subido ao palco com eles poucos meses antes.

A banda, entretanto, continua com atividades e apresentações anunciadas.

A história, portanto, não terminou.

Ela apenas ganhou mais um capítulo.

Você sabia?

“Unbelievable” reúne uma quantidade impressionante de pequenas histórias que normalmente desaparecem quando o sucesso é resumido apenas a uma posição de parada.

Foi criada durante uma pedalada depois de uma separação.

O riff nasceu do encontro entre blues e formação clássica.

Zac Foley ajudou a transformá-lo em uma linha de baixo marcante.

James Atkin escreveu o rap.

Uma demo doméstica preservou vozes de amigos ao fundo.

A gravação definitiva usou a primeira de apenas duas tomadas vocais.

A banda dormiu no chão do estúdio.

Um ovo explodiu no micro-ondas.

Um encontro casual com Rick Rubin resolveu a autorização de um dos sons mais reconhecíveis da música.

Afrika Bambaataa depois remixou a faixa.

E uma banda que começou em Cinderford chegou ao topo da Billboard.

Quando colocados juntos, esses acontecimentos mostram algo que uma simples lista de curiosidades não consegue explicar.

“Unbelievable” não foi resultado de uma única decisão genial.

Foi o encontro de muitas pequenas circunstâncias, referências, pessoas, erros, acertos e coincidências.

Talvez seja justamente por isso que ela tenha sobrevivido.

O caos que ficou

Mais de três décadas depois, “Unbelievable” continua sendo reconhecida quase imediatamente.

Mas sua permanência não está apenas no refrão.

Está na história.

Está na mistura.

Está naquele momento específico em que o rock deixou de olhar para a música eletrônica como algo distante, enquanto o hip-hop já começava a transformar a maneira como jovens músicos pensavam ritmo, atitude e produção.

O EMF estava no meio dessa mudança.

E “Unbelievable” capturou aquele instante.

Por isso, talvez o título da música tenha adquirido uma segunda dimensão com o passar do tempo.

Em 1990, era uma palavra.

Em 1991, tornou-se um fenômeno.

Em 2026, permanece como memória.

O caos passou.
A música ficou.

🎧 Uma história para continuar ouvindo

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Por Redação Planeta Saudade

🔎 Fontes pesquisadas

  • EMF — site oficial da banda
  • EMF — Band Bio
  • EMF — Chart History
  • EMF — Go Go Sapiens
  • EMF — The Beauty and the Chaos
  • EMF — “Reach for the Lasers”
  • Official Charts — histórico oficial de “Unbelievable”
  • Official Charts — histórico de “I Believe”
  • Official Charts — histórico de Schubert Dip
  • Official Charts — histórico de Unexplained
  • Billboard — arquivo histórico da Hot 100
  • The Guardian — “How EMF made Unbelievable”
  • POW Magazine — entrevista de 2026 com Ian Dench e James Atkin
  • The Washington Post — cobertura contemporânea de 1991
  • MusicBrainz — histórico e discografia do EMF
  • Setlist.fm — registros de apresentações de 2026
  • AllMusic — biografia e discografia do EMF

Pesquisa e apuração editorial: Redação Planeta Saudade

Critério: consulta cruzada entre fontes oficiais, bases discográficas, arquivos históricos de paradas, entrevistas, imprensa contemporânea e registros especializados.

Preservando a memória da música, uma história de cada vez.

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