Time, do The Alan Parsons Project: a canção que ganhou um novo significado em Baila Comigo
Antes de se tornar uma lembrança afetiva da televisão brasileira, “Time” já carregava uma história sobre despedidas, escolhas e o tempo que segue seu próprio caminho

Por Redação Planeta Saudade
Publicado em: 26 de agosto de 2026
Há músicas que nos fazem lembrar de uma época.
E há músicas que conseguem fazer algo ainda mais poderoso: nos fazer lembrar de uma história que nem sequer pertence originalmente a elas.
É o que acontece com “Time”, do The Alan Parsons Project.
Para quem descobriu a canção no Brasil no começo dos anos 1980, seus primeiros acordes podem trazer de volta imediatamente a atmosfera de uma novela, personagens e uma televisão que ocupava um lugar muito particular na vida das famílias.
Em “Baila Comigo”, exibida pela TV Globo em 1981, “Time” foi registrada oficialmente como tema de Lúcia e Quinzinho. A própria Memória Globo identifica Alan Parsons e Eric Woolfson como compositores e o The Alan Parsons Project como intérprete.
Mas existe uma história anterior.
Antes de pertencer à memória de uma novela brasileira, “Time” já havia sido pensada dentro de um álbum conceitual sobre riscos, escolhas e as partidas que fazemos ao longo da vida.
E talvez seja justamente por isso que ela tenha envelhecido tão bem.
Antes da novela, uma canção sobre o tempo que não para
“Time” faz parte de The Turn of a Friendly Card, quinto álbum de estúdio do The Alan Parsons Project, lançado em 1980.
O disco nasceu de uma ideia bastante específica: a relação entre o risco dos jogos de azar e os riscos que todos assumimos na vida.
No site oficial do projeto, o álbum é descrito como inspirado pela teatralidade dos cassinos de Las Vegas e Monte Carlo e pela relação entre os riscos assumidos nas mesas de jogo e aqueles que enfrentamos em nossa própria existência.
Dentro desse universo, “Time” ocupa uma posição particularmente interessante.
Ela aparece como a terceira faixa do álbum, depois de “May Be a Price to Pay” e “Games People Play”, antes de “I Don’t Wanna Go Home”.
E sua própria letra trabalha com uma imagem simples e poderosa: o tempo seguindo seu curso como um rio, enquanto pessoas se despedem sem saber se voltarão a se encontrar.
É uma ideia que poderia pertencer a qualquer geração.
Talvez por isso a música tenha encontrado tantos lugares diferentes ao longo de sua trajetória.
Eric Woolfson colocou a própria voz na história
Existe um detalhe que torna “Time” ainda mais especial para quem conhece o The Alan Parsons Project apenas pelas canções.
O vocal principal da gravação é de Eric Woolfson, justamente um dos nomes centrais na criação do projeto ao lado de Alan Parsons.
Os créditos oficiais de The Turn of a Friendly Card registram Woolfson nos vocais e piano, Alan Parsons nos vocais adicionais, Ian Bairnson nas guitarras, David Paton no baixo e guitarras acústicas, Stuart Elliott na bateria e percussão e Chris Rainbow nos vocais de fundo. Andrew Powell foi responsável pelo arranjo e condução da orquestra.
Isso ajuda a entender por que “Time” possui uma personalidade vocal tão particular.
A canção não foi apenas composta por alguém de fora para depois ser entregue a um intérprete.
Ela foi escrita por Eric Woolfson e Alan Parsons e cantada por Woolfson na gravação definitiva.
É uma diferença pequena na ficha técnica, mas enorme quando pensamos na identidade da música.
Uma gravação construída com paciência
O The Alan Parsons Project era conhecido por tratar o estúdio como parte essencial do processo criativo.
Os registros oficiais do álbum revelam que “Time” passou por diferentes estágios antes de chegar à versão definitiva.
O material lançado posteriormente inclui uma “Time – Early Studio Attempt”, uma tentativa inicial de estúdio que, segundo o próprio site oficial do projeto, foi posteriormente desenvolvida e consideravelmente refinada.
Em 2024, a Sony Music também lançou The Turn of a Friendly Card (Sessions), reunindo materiais de arquivo das sessões do álbum, incluindo um diário de composição de Eric Woolfson para “Time” e essa primeira tentativa de estúdio.
É uma pequena janela para dentro do processo de criação.
A música que hoje parece tão naturalmente construída não surgiu pronta.
Houve tentativa, desenvolvimento, gravação, revisão e refinamento.
E isso faz parte da história que normalmente não aparece quando simplesmente ouvimos a faixa no rádio.
O som que transformou uma reflexão em canção
A força de “Time” está também na maneira como esses elementos foram organizados.
O piano de Eric Woolfson sustenta a música.
A guitarra de Ian Bairnson acrescenta textura.
O baixo de David Paton e a bateria e percussão de Stuart Elliott dão corpo à gravação.
Chris Rainbow aparece nos vocais de fundo, enquanto a orquestra foi arranjada e conduzida por Andrew Powell.
Alan Parsons, além de produzir e fazer a engenharia da gravação, participa também dos vocais adicionais.
O resultado não depende de excesso.
A canção cresce sem perder sua delicadeza.
E essa característica seria importante quando ela encontrasse, pouco tempo depois, um novo cenário: a televisão brasileira.
“Time” já tinha uma história antes de chegar a Baila Comigo
É importante desfazer uma impressão que a memória das novelas pode criar.
“Time” não surgiu no Brasil.
A canção já fazia parte da trajetória internacional do The Alan Parsons Project quando chegou à televisão brasileira.
Em 1981, o material promocional da Arista registrava “Time” nas paradas e destacava sua permanência havia meses nos rankings, ao mesmo tempo em que promovia The Turn of a Friendly Card como um álbum de alcance mundial.
Ou seja: quando a música apareceu em Baila Comigo, ela não era uma descoberta brasileira de uma faixa desconhecida.
Ela já tinha uma vida própria.
A novela acrescentaria outra.
E é justamente essa segunda vida que tornou “Time” tão especial para uma geração de brasileiros.
Então a televisão mudou a maneira de ouvir “Time”
Baila Comigo foi exibida pela TV Globo entre 16 de março e 25 de setembro de 1981, no horário das 20h, em 163 capítulos.
A novela de Manoel Carlos possuía uma trilha internacional cuidadosamente selecionada.
Na relação oficial preservada pela Memória Globo aparecem nomes como Dolly Parton, Don McLean, Gino Vannelli, Roger Daltrey, Gilbert O’Sullivan, Richard Sanderson e Frank Duval. E, entre eles, estava o The Alan Parsons Project com “Time”.
O LP internacional da novela foi lançado pela Som Livre em maio de 1981 e reuniu 14 gravações internacionais. “Time” aparece no lado B, entre “Santa Maria”, do Newton Family, e “Let’s Hang On”, de Salazar.
Mas o detalhe mais importante não está na ordem das faixas.
Está na identificação dos personagens.
A Memória Globo registra:
“Time” — Tema de Lúcia e Quinzinho.
É nesse momento que a história da música muda de dimensão.
Lúcia e Quinzinho deram à música uma nova memória
A gravação continuou exatamente a mesma.
Eric Woolfson continuava cantando.
O piano continuava conduzindo a música.
A orquestra continuava presente.
O tempo continuava fluindo.
Mas, para o público brasileiro, aquela música passou a carregar imagens que não estavam no álbum de 1980.
Esse é um dos fenômenos mais interessantes da música de novelas.
Uma canção estrangeira pode chegar ao público trazendo um significado próprio, mas a repetição dentro de uma narrativa televisiva cria novas associações.
No caso de “Time”, a Globo registrou oficialmente a música como tema de Lúcia e Quinzinho.
Assim, para quem acompanhava Baila Comigo, ouvir a canção poderia significar muito mais do que ouvir The Alan Parsons Project.
Era também reencontrar uma parte daquela história.
O LP que ajudou a guardar aquela memória
Existe outro aspecto importante nessa história: as trilhas sonoras de novelas não dependiam apenas da televisão.
Elas também chegavam às casas brasileiras em forma de disco.
O álbum Baila Comigo Internacional, lançado pela Som Livre em 1981, trazia na própria apresentação a proposta de reunir os temas internacionais apresentados na novela em gravações originais. O LP incluía 14 faixas, entre elas “Time”.
Isso significa que a relação do público com a música podia continuar depois que o capítulo terminava.
A pessoa podia assistir à novela.
Podia ouvir a música novamente no disco.
Podia gravá-la.
Podia reconhecê-la no rádio.
E, com o tempo, aquela sequência de sons passava a fazer parte da memória pessoal.
A televisão apresentava a história.
O disco ajudava a preservá-la.
Um detalhe de bastidor que ganhou nova vida décadas depois
A descoberta mais interessante talvez esteja justamente no que aconteceu muito tempo depois da gravação original.
Os arquivos de The Turn of a Friendly Card começaram a revelar versões de trabalho, diários de composição e tentativas de estúdio que ajudam a reconstruir como as músicas foram tomando forma.
No caso de “Time”, existe uma versão inicial de estúdio que permite perceber que a gravação passou por um processo de desenvolvimento antes de chegar à forma conhecida pelo público.
Em outras palavras, a música que se tornou uma lembrança tão instantânea para quem assistia à novela nasceu de um processo muito menos instantâneo.
Por trás daqueles pouco mais de cinco minutos havia uma construção cuidadosa.
O verdadeiro encontro entre duas histórias
É justamente aqui que “Time” se torna maior do que uma simples canção de trilha sonora.
Existem duas histórias acontecendo.
A primeira é a história do próprio The Alan Parsons Project:
uma composição de Eric Woolfson e Alan Parsons, inserida em um álbum conceitual sobre riscos, escolhas e as consequências das decisões humanas.
A segunda é brasileira:
uma gravação internacional que encontrou em Baila Comigo uma nova associação emocional e passou a ser reconhecida pelo público como tema de Lúcia e Quinzinho.
Uma história não apaga a outra.
Elas se somam.
É por isso que uma mesma música pode ser ouvida de maneiras tão diferentes.
Para alguém, “Time” é uma das grandes gravações do The Alan Parsons Project.
Para outra pessoa, é imediatamente 1981.
Para outra, é a voz de Eric Woolfson.
E para outra, os primeiros acordes são suficientes para trazer de volta Baila Comigo.
Por que “Time” continua funcionando tantos anos depois?
Talvez porque a música tenha escolhido um tema que nunca envelhece.
O tempo.
A passagem.
As despedidas.
A incerteza sobre o reencontro.
E existe uma ironia bonita nisso tudo.
Uma canção que fala sobre o tempo acabou se tornando justamente uma das ferramentas usadas pela memória para voltar ao passado.
O tempo levou 1980.
Levou 1981.
Levou a exibição original da novela.
Levou os anos seguintes.
Mas não levou a associação que aquela música criou.
Ela continua lá.
Toda vez que alguém ouve os primeiros acordes e, antes mesmo de a voz entrar, já sabe exatamente para onde aquela música vai levá-lo.
O legado de uma música que ganhou duas vidas
“Time” não precisa ser lembrada apenas como “a música de Baila Comigo”.
Essa definição seria pequena demais para sua história.
Antes da novela, ela já era uma composição importante dentro de The Turn of a Friendly Card.
Já tinha Eric Woolfson nos vocais.
Já carregava a assinatura criativa de Woolfson e Alan Parsons.
Já havia passado por um processo cuidadoso de gravação.
E já possuía uma trajetória internacional.
Depois, no Brasil, ganhou uma nova camada.
A televisão associou aquela gravação a Lúcia e Quinzinho.
A trilha sonora colocou a música nas coleções domésticas.
E a memória fez o restante.
É assim que uma canção deixa de pertencer somente ao seu tempo.
Ela passa a pertencer também às lembranças de quem a ouviu.
🎵 Você Sabia?
“Time” possui uma versão inicial de estúdio preservada nos arquivos do álbum The Turn of a Friendly Card. O próprio The Alan Parsons Project explica que essa gravação inicial foi posteriormente desenvolvida e bastante refinada até chegar à versão conhecida. Décadas depois, esse material foi oficialmente disponibilizado na coleção The Turn of a Friendly Card (Sessions).
📚 Continue explorando a história da música
A história de “Time” mostra que uma música pode atravessar fronteiras e ganhar novos significados sem perder sua identidade.
No Portal Planeta Saudade, outras canções também revelam esse mesmo fenômeno: músicas que nasceram em um contexto, atravessaram o rádio, a televisão e os discos e acabaram se tornando parte da memória de quem as ouviu.
Porque, quando conhecemos a história por trás de uma canção, nunca mais a escutamos exatamente da mesma maneira.
🎧 Ouça a trilha sonora desta história
“Time”, do The Alan Parsons Project, faz parte da programação da Rádio Planeta Saudade.
E talvez agora exista uma diferença.
Quando os primeiros acordes começarem, você poderá ouvir mais do que uma gravação de 1980.
Poderá ouvir Eric Woolfson.
Poderá lembrar do The Alan Parsons Project.
Poderá lembrar de The Turn of a Friendly Card.
E, para quem viveu aquele momento, talvez também volte à memória a televisão de 1981, Baila Comigo, Lúcia e Quinzinho.
Porque algumas músicas não ficam paradas no passado.
Elas esperam que o tempo passe para ganhar ainda mais histórias.
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Preservando a memória da música, uma história de cada vez.
