Rita Lee, Vanusa e Gal Costa: três estrelas, três caminhos e a saudade que ficou

0
WhatsApp Image 2026-09-03 at 07.58.59

Antes dos grandes palcos e dos sucessos que atravessaram gerações, Rita Lee, Vanusa e Gal Costa tiveram começos surpreendentemente diferentes — do piano clássico aos bailes e a uma loja de discos em Salvador. Conheça histórias pouco lembradas que ajudam a entender as três artistas que o Brasil nunca deixou de ouvir.

Por Redação Planeta Saudade
Publicado em: 3 de setembro de 2026

Há vozes que pertencem à música.

E há vozes que, de alguma maneira, passam a pertencer também à memória de quem as escuta.

Rita Lee, Vanusa e Gal Costa estão nesse segundo grupo.

Basta uma introdução, um refrão ou os primeiros segundos de uma gravação para que alguma coisa aconteça: uma lembrança aparece, uma época retorna, uma pessoa vem à memória.

Mas existe algo ainda mais interessante quando olhamos para essas três artistas.

Nenhuma delas começou exatamente onde a memória popular costuma colocá-las.

Antes de Rita Lee se tornar um dos maiores símbolos do rock brasileiro, houve aulas de piano e uma formação musical que incluía a renomada pianista Magdalena Tagliaferro.

Antes de Vanusa conquistar a televisão e construir uma carreira de décadas, ela já cantava profissionalmente em bailes aos 16 anos.

E antes de Gal Costa se tornar uma das vozes fundamentais da Tropicália e da MPB, a jovem Maria da Graça trabalhava em uma loja de discos em Salvador, cercada diariamente pela música que estava transformando o Brasil.

São três começos diferentes.

E talvez seja justamente aí que esteja a melhor maneira de reencontrá-las.


Rita Lee: a garota do piano que acabou descobrindo o rock

Quando se fala em Rita Lee, as primeiras imagens costumam ser de guitarra, rock, irreverência, cabelos coloridos, humor e liberdade.

Mas sua formação musical começou em outro território.

Ainda criança, Rita estudou piano com Magdalena Tagliaferro, uma das pianistas brasileiras de maior projeção internacional. Essa passagem pela música erudita é um detalhe importante porque revela que, antes da futura roqueira, havia uma menina sendo introduzida ao estudo formal da música.

A própria trajetória posterior de Rita mostraria que essa formação não desapareceu simplesmente quando o rock entrou em sua vida.

Ela aprenderia a misturar referências.

E essa talvez seja uma das chaves para entender sua obra.

Rita nunca foi apenas “uma cantora de rock”.

Antes dos Mutantes

Na adolescência, Rita começou a se aproximar do rock que vinha dos Estados Unidos e da Inglaterra.

Em 1963, participou do Teenage Singers, grupo vocal feminino que antecedeu experiências decisivas de sua carreira. Pouco depois, veio a formação dos Six Sided Rockers, que se transformaria em O’Seis e, finalmente, daria origem ao núcleo dos Mutantes.

A história ganhou velocidade.

Rita se aproximou de Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, e aquela combinação de músicos extremamente jovens, instrumentos incomuns e vontade de experimentar acabaria criando uma das formações mais originais da música brasileira.

Quando Os Mutantes começaram a aparecer na televisão, Rita já não era apenas a garota que cantava.

Era instrumentista, compositora e uma presença artística que chamava atenção.

Uma reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em 1966, quando Os Mutantes ainda estavam começando a se tornar conhecidos, registrava Rita como percussionista e mencionava também sua relação com instrumentos como harpa e flauta.

Isso ajuda a desmontar uma imagem simplificada que surgiu depois.

Rita não apareceu pronta. Ela foi construída pela experimentação.

Os Mutantes e a ruptura

Em 1967, Os Mutantes acompanharam Gilberto Gil em “Domingo no Parque”, no Festival da Record.

Era o momento em que a música brasileira começava a romper fronteiras entre tradição e modernidade.

Pouco depois, a Tropicália aproximaria ainda mais aqueles músicos de uma geração interessada em misturar guitarra elétrica, música brasileira, psicodelia, humor, televisão, cultura pop e provocação.

Rita estava no centro daquela transformação.

Mas sua história não terminaria nos Mutantes.

Ao seguir carreira solo, ela encontrou outro território para sua personalidade artística.

Vieram “Ovelha Negra”, “Agora Só Falta Você”, “Mania de Você”, “Lança Perfume”, “Baila Comigo” e tantas outras canções que ajudaram a transformar o rock em linguagem popular no Brasil.

Rita passou a cantar sobre liberdade, desejo, comportamento e cotidiano com uma naturalidade que parecia simples — mas era justamente sua grande força.

Ela conseguia transformar assuntos que poderiam soar provocativos em canções que o grande público queria cantar.

E talvez por isso Rita tenha se tornado muito maior do que um gênero musical.

Ela se tornou uma personagem permanente da cultura brasileira.


Vanusa: quando o palco chegou antes da fama

A história de Vanusa começa de maneira bem diferente.

Ela não precisou esperar uma grande gravadora ou um programa de televisão para descobrir o palco.

Aos 16 anos, já cantava profissionalmente no conjunto de rock-baile Golden Lions. O dado aparece em registros biográficos especializados e é uma das melhores pistas para entender a dimensão de sua precocidade artística.

Antes da televisão, havia o baile.

Antes da fama, havia estrada.

E isso significa muito.

Os conjuntos de baile eram uma verdadeira escola para músicos e cantores daquela época. Era preciso conhecer repertórios diferentes, lidar diretamente com o público e aprender a sustentar uma apresentação inteira.

Vanusa viveu essa experiência ainda adolescente.

A mudança para São Paulo

Uma apresentação dos Golden Lions chamou a atenção de pessoas ligadas ao meio artístico e publicitário, abrindo para Vanusa a possibilidade de tentar a carreira profissional em São Paulo.

A mudança alteraria completamente sua trajetória.

Em meados dos anos 1960, a televisão brasileira estava se tornando uma força gigantesca na criação de novos ídolos musicais.

Vanusa encontrou ali uma porta.

Em 1966, participou do programa “O Bom”, apresentado por Eduardo Araújo na TV Excelsior.

Depois vieram a gravação pela RCA Victor e “Pra Nunca Mais Chorar”, composta por Eduardo Araújo e Carlos Imperial.

Vanusa também passou pelo universo da Jovem Guarda, mas sua carreira não caberia por muito tempo dentro daquele movimento.

E essa é uma das partes mais interessantes de sua história.

A artista que recusou uma única definição

Vanusa foi intérprete.

Foi compositora.

Foi atriz.

Foi presença de televisão.

E, principalmente, foi uma cantora que continuou procurando repertórios diferentes ao longo da carreira.

Em 1968, lançou seu primeiro álbum, “Vanusa”, no qual também apareceu como compositora.

Alguns anos depois, sua voz encontraria uma de suas canções mais associadas à memória brasileira: “Manhãs de Setembro”, composta por Vanusa em parceria com Mário Campanha.

Depois vieram outras gravações importantes, entre elas “Paralelas”, de Belchior, e “Mudanças”.

Quando se observa essa sequência, fica mais fácil compreender por que Vanusa não deve ser lembrada apenas como uma cantora ligada à Jovem Guarda.

A Jovem Guarda foi uma porta.

Não foi a casa inteira.

Sua carreira continuou muito além daquele primeiro momento.


Gal Costa: antes da Tropicália, uma jovem cercada de discos

Entre as três histórias, a de Gal Costa talvez tenha um dos detalhes mais fascinantes.

Antes de ser Gal Costa, ela era Maria da Graça.

E antes de conquistar os grandes palcos, trabalhou em uma loja de discos em Salvador.

Parece um detalhe pequeno.

Não é.

Imagine uma jovem interessada por música trabalhando diariamente em um lugar onde discos chegam, são ouvidos, comentados e descobertos.

Naquele ambiente, Gal teve contato próximo com o repertório musical de seu tempo e aprofundou sua ligação com a Bossa Nova. Registros biográficos da Fundação Joaquim Nabuco destacam essa passagem pela loja de discos em Salvador.

E havia um artista que teria importância especial em sua formação:

João Gilberto.

A maneira econômica e íntima de cantar, característica da Bossa Nova, seria uma influência fundamental para a jovem cantora.

Mas Gal não permaneceria ali.

O encontro que mudaria tudo

Em 1963, Gal conheceu Caetano Veloso, apresentada por Dedé Gadelha.

A amizade e parceria artística entre os dois se tornaria uma das mais importantes da música brasileira.

No ano seguinte, Gal participou do espetáculo “Nós, Por Exemplo”, realizado no Teatro Vila Velha, em Salvador, ao lado de nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Tom Zé.

Era uma geração se encontrando.

Ainda não existia a Tropicália como movimento consolidado.

Mas havia alguma coisa acontecendo.

Os artistas estavam experimentando repertórios, formas de apresentação e maneiras diferentes de pensar a música brasileira.

Gal estava no meio dessa transformação.

De Maria da Graça a Gal

A mudança de nome artístico também pertence a essa história.

Foi Guilherme Araújo, empresário que teria papel importante na carreira da cantora, quem sugeriu o nome Gal.

A partir dali, Maria da Graça começaria a desaparecer do palco.

E Gal Costa surgiria.

Em 1965, ela participou do primeiro disco de Maria Bethânia e realizou sua primeira gravação em um LP.

Depois vieram os primeiros registros próprios.

Em 1967, Gal e Caetano lançaram “Domingo”, primeiro álbum de estúdio dos dois.

O disco ainda carregava forte influência da Bossa Nova.

Mas bastaria pouco tempo para a cantora revelar outra dimensão.

Quando aquela voz mudou de direção

A transformação de Gal é uma das histórias mais fascinantes da música brasileira.

A mesma cantora que havia aprendido a trabalhar a delicadeza do canto próximo da Bossa Nova passaria a explorar guitarras, psicodelia, rock e uma interpretação muito mais física.

A Tropicália encontrou nela uma intérprete perfeita.

“Divino Maravilhoso”, de Caetano Veloso e Gilberto Gil, tornou-se um dos símbolos dessa transformação.

Depois vieram outras fases.

Gal poderia ser delicada.

Poderia ser explosiva.

Poderia ser sofisticada.

Poderia ser popular.

Poderia experimentar.

E talvez seja exatamente por isso que sua carreira tenha atravessado tantas gerações sem perder relevância.

Gal nunca parou de procurar a próxima possibilidade de sua própria voz.


Três mulheres, três portas de entrada para a música

Quando colocamos as histórias lado a lado, surge uma coincidência curiosa.

As três começaram antes de serem famosas — mas começaram de maneiras completamente diferentes.

Rita Lee veio do encontro entre uma formação musical inicial e a descoberta do rock.

Vanusa aprendeu a profissão diretamente diante do público, nos bailes, ainda adolescente.

Gal Costa mergulhou na música em Salvador, entre discos, amigos e uma geração que começava a mudar a canção brasileira.

Nenhuma dessas histórias parece, sozinha, anunciar a dimensão que suas protagonistas alcançariam.

Mas, olhando para trás, os sinais estavam todos ali.

A curiosidade de Rita.

A experiência precoce de Vanusa.

A capacidade de escuta de Gal.

Três características diferentes.

Três artistas diferentes.

Três legados impossíveis de confundir.


E então vieram as canções que ficaram

Talvez seja esse o ponto em que a biografia deixa de ser biografia e passa a ser memória.

Porque, no fim, não lembramos apenas das três artistas.

Lembramos das músicas.

Ovelha Negra”.

Agora Só Falta Você”.

Mania de Você”.

Lança Perfume”.

Manhãs de Setembro”.

Paralelas”.

Mudanças”.

Baby”.

Vapor Barato”.

Divino Maravilhoso”.

Festa do Interior”.

São títulos.

Mas também são lugares da memória.

Cada um pode carregar uma época diferente da vida de quem escuta.

É por isso que a saudade provocada pela música é tão particular.

Uma canção não precisa apenas lembrar uma artista.

Ela pode lembrar quem nós éramos quando aquela artista fazia parte da nossa rotina.


Três estrelas. Uma pergunta.

Rita Lee nos deixou em 8 de maio de 2023, aos 75 anos.

Vanusa morreu em 8 de novembro de 2020, aos 73 anos.

Gal Costa morreu em 9 de novembro de 2022, aos 77 anos.

Três despedidas.

Três trajetórias.

Três repertórios que continuam circulando.

E existe uma pergunta que talvez não tenha resposta certa:

De qual delas você ainda sente falta?

Talvez seja Rita, pela irreverência que parecia impossível de substituir.

Talvez Vanusa, por aquela voz que fazia determinadas canções parecerem confissões pessoais.

Talvez Gal, pela capacidade de transformar a própria voz sempre que a música brasileira mudava de direção.

Ou talvez seja impossível escolher.

Porque algumas ausências não competem entre si.

Elas simplesmente se somam.


🎵 Você Sabia?

Rita Lee estudou piano com Magdalena Tagliaferro antes de se tornar um dos maiores nomes do rock brasileiro — uma passagem pouco lembrada quando sua trajetória é resumida apenas aos Mutantes e à carreira solo.

Vanusa já cantava profissionalmente aos 16 anos no conjunto de rock-baile Golden Lions. Ou seja: quando sua imagem começou a chegar ao grande público pela televisão, ela já trazia experiência de palco.

Gal Costa trabalhou em uma loja de discos em Salvador antes da fama. A experiência a colocou em contato cotidiano com gravações e repertórios que ajudaram a formar seu universo musical.

São três pequenos detalhes.

Mas juntos eles contam uma história maior:

antes de o Brasil conhecer essas estrelas, elas já estavam aprendendo a ouvir, cantar e sobreviver no mundo da música.


Continue explorando a história da música

No Portal Planeta Saudade, cada artista é também uma porta para outras histórias.

Porque uma música nunca nasce sozinha.

Existe quem a compôs.

Quem a cantou.

Quem tocou.

Quem produziu.

Quem ouviu pela primeira vez.

E existe o público que, décadas depois, ainda consegue reconhecer os primeiros acordes.

Se Rita Lee, Vanusa e Gal Costa fazem parte da sua memória, continue explorando outras histórias da música brasileira no Portal.

Talvez a próxima canção também esconda uma história que você ainda não conhecia.


Agora, escute essas histórias de outra maneira

Depois de descobrir como essas três artistas começaram, talvez seja impossível ouvir suas músicas exatamente da mesma forma.

Ao escutar Rita, talvez você se lembre daquela menina diante do piano antes de descobrir o rock.

Ao ouvir Vanusa, talvez apareça a adolescente que já enfrentava os palcos dos bailes aos 16 anos.

Ao ouvir Gal, talvez você imagine Maria da Graça entre discos em Salvador, antes de aquela jovem se transformar em uma das vozes mais marcantes da música brasileira.

E é justamente aí que a história encontra a música.

Os grandes sucessos de Rita Lee, Vanusa e Gal Costa fazem parte da programação da Rádio Planeta Saudade.

Aquelas canções que marcaram gerações continuam encontrando espaço onde a memória musical permanece viva.

Você não precisa apenas lembrar.

Pode ouvir novamente.

🌐 Site oficial: radioplanetasaudade.com.br
📱 Aplicativo oficial: Android e iPhone
💻 Web App: Android, iOS e computadores
🗣️ Alexa: “Alexa, tocar Rádio Planeta Saudade”
🚗 Android Auto e Apple CarPlay: Rádio Planeta Saudade no carro
📻 Rádios Net: disponível também na plataforma
🎧 CX Rádio: disponível também na plataforma


Sobre o Portal Planeta Saudade

O Portal Planeta Saudade existe para preservar a memória da música com pesquisa, contexto, responsabilidade e emoção.

Mais do que lembrar que uma música foi importante, procuramos explicar por que ela foi importante, quem participou de sua trajetória e quais histórias merecem continuar vivas.

Porque uma canção é mais do que uma gravação.

É composição, interpretação, época, pessoas, escolhas, sentimentos e memória.

E algumas vozes, mesmo depois de partirem, continuam encontrando um jeito de voltar.

Basta uma música.

Basta apertar o play.

Preservando a memória da música, uma história de cada vez.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *