Cherish: a canção do Kool & The Gang que transformou a saudade de Cambalacho em memória para uma geração

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Cambalacho

Antes de se tornar tema de Andréia na televisão brasileira, “Cherish” já havia levado o Kool & The Gang a uma dimensão internacional. Sua história começa nas Bahamas, passa por uma mudança decisiva na sonoridade do grupo e termina encontrando no Brasil uma personagem que tornou sua trajetória ainda mais curiosa.

Por Redação Planeta Saudade
Publicado em: 12 de setembro de 2026

Há músicas que pertencem a uma época. E há aquelas que parecem guardar uma parte da vida de quem as escutou.

“Cherish” é uma delas.

Para muitos brasileiros, basta a introdução para que 1986 volte à memória: a televisão, Cambalacho, a trilha internacional e, sobretudo, Andréia, a personagem de Natália do Vale que transformou a delicada balada do Kool & The Gang em uma lembrança inseparável da novela. O próprio Memória Globo registra “Cherish” como tema de Andréia.

Mas existe uma história muito maior antes de Cambalacho.

E talvez seja justamente por isso que a canção continue tão fascinante.

Antes de chegar ao Brasil, Cherish já havia conquistado o mundo

“Cherish” surgiu em um momento de transformação para o Kool & The Gang.

A banda que havia construído sua reputação no jazz, soul, funk e R&B começava a ampliar ainda mais sua linguagem pop. A chegada de James “J.T.” Taylor aos vocais havia ajudado a abrir uma nova fase para o grupo, que passava a alternar grandes faixas dançantes com canções de forte apelo romântico.

“Cherish” pertence exatamente a esse momento.

Lançada como parte do álbum Emergency, a canção encontrou um público muito além das fronteiras do R&B.

Nos Estados Unidos, alcançou o 2º lugar da Billboard Hot 100 e chegou ao primeiro lugar na parada de R&B. Também liderou a Adult Contemporary por seis semanas. No balanço anual da Billboard de 1985, terminou como a 17ª música mais bem posicionada do ano.

No Reino Unido, a história também foi expressiva: “Cherish” chegou ao 4º lugar e permaneceu 22 semanas na parada oficial.

A canção ainda apareceu em rankings de diversos outros mercados.

Ou seja: quando chegou à televisão brasileira, “Cherish” já carregava uma história internacional.

Uma música que nasceu nas Bahamas

Um dos capítulos mais interessantes está longe das paradas.

Ronald “Khalis” Bell, cofundador do Kool & The Gang e um dos principais compositores da banda, contou em entrevista que a música nasceu durante o período em que o grupo trabalhava no Compass Point Studios, nas Bahamas.

Bell criou a melodia.

James “J.T.” Taylor escreveu as palavras.

Essa parceria produziu uma das baladas mais reconhecíveis da carreira do grupo.

E o próprio título já explica muito de sua natureza.

“Cherish” significa valorizar, guardar com carinho, cuidar de alguém ou de algo que possui importância. O próprio sentido da palavra carrega a ideia central da canção: reconhecer o valor de um relacionamento enquanto ele existe.

Não é uma música sobre grandes gestos.

É sobre aquilo que merece ser preservado.

Talvez por isso tenha envelhecido tão bem.

Quando o Kool & The Gang diminuiu o ritmo sem perder sua identidade

Existe uma tendência de enxergar “Cherish” simplesmente como uma balada romântica dos anos 80.

Mas isso reduz sua importância.

A música representa uma etapa importante da transformação artística do Kool & The Gang.

A banda já havia provado que podia dominar as pistas com “Ladies’ Night”, “Celebration” e “Get Down On It”. Agora demonstrava que também conseguia alcançar o público através de uma canção contemplativa.

Essa capacidade de transitar entre estilos ajudou a consolidar o grupo como uma das formações mais duradouras da música popular americana.

Em 2024, essa trajetória recebeu uma das maiores consagrações possíveis: Kool & The Gang entrou para o Rock & Roll Hall of Fame. A Associated Press destacou, na cerimônia, que o grupo acumulou 12 músicas no Top 10 da Billboard Hot 100, entre elas “Cherish”.

Décadas depois, aquela balada continuava fazendo parte da história.

E então Cherish encontrou Cambalacho

É nesse ponto que a história internacional ganha sotaque brasileiro.

Cambalacho estreou em 1986 e reuniu humor, golpes, romances, ambição e personagens que ficaram marcados na memória da televisão.

Entre eles estava Andréia.

Interpretada por Natália do Vale, ela era apresentada pelo Memória Globo como a grande bandida da história.

E foi justamente essa personagem que recebeu “Cherish” como tema.

Há uma curiosa ironia nessa escolha.

De um lado, uma canção cujo próprio título remete a valorizar, cuidar e preservar aquilo que se ama.

Do outro, uma personagem movida pela ambição, pelo cálculo e pelo interesse.

Não temos documentação suficiente para afirmar que essa contradição foi deliberadamente planejada pelos responsáveis pela novela — e não seria correto inventar essa intenção.

Mas como experiência narrativa, ela é irresistível.

A música falava de valorizar. A personagem parecia viver para possuir.

E talvez seja justamente essa combinação inesperada que tenha ajudado a tornar “Cherish” tão inseparável da memória de Cambalacho.

Uma trilha que parecia uma fotografia de 1986

“Cherish” ainda dividia espaço com uma seleção internacional extraordinária.

A trilha reunia Double, com “The Captain of Her Heart”; Gloria Estefan & Miami Sound Machine, com “Bad Boy”; Joe Cocker, com “Don’t You Love Me Anymore”; Whitney Houston, com “Greatest Love of All”; Patti LaBelle & Michael McDonald, com “On My Own”; Tina Turner, com “Better Be Good to Me”; Level 42, com “Something About You”; Bangles, com “Manic Monday”; Chris Rea, com “Let’s Dance”; e ZZ Top, com “Rough Boy”**, entre outros.

Era praticamente um retrato sonoro do pop internacional daquele momento.

E a trilha alcançou uma repercussão comercial expressiva no Brasil.

Um levantamento especializado registra 776.258 cópias vendidas para a trilha internacional de Cambalacho.

Mas números explicam o tamanho de um fenômeno.

Não explicam sua permanência.

O que faz uma música sobreviver à própria época?

Talvez a resposta esteja justamente em “Cherish”.

Porque a música conseguiu existir em vários lugares ao mesmo tempo.

Foi sucesso nas paradas.

Foi uma balada de rádio.

Foi parte de um álbum importante do Kool & The Gang.

Foi tema de personagem em uma novela brasileira.

E, décadas depois, continua funcionando sem precisar da televisão para justificar sua existência.

Esse é o momento em que uma música deixa de ser apenas um sucesso e começa a se transformar em memória.

Quem conheceu “Cherish” por Cambalacho pode hoje descobrir sua história internacional.

Quem conheceu a canção nas rádios pode reencontrá-la através da lembrança da novela.

E quem nasceu depois pode simplesmente ouvi-la como aquilo que ela sempre foi:

uma grande canção de amor.

Você Sabia? 🎵

“Cherish” teve uma trajetória internacional particularmente forte: além de chegar ao nº 2 nos Estados Unidos, alcançou o nº 4 no Reino Unido e permaneceu 22 semanas na parada britânica.

Continue explorando a história da música 📚

A história de Cambalacho revela algo fascinante sobre a televisão brasileira: uma novela podia funcionar como uma verdadeira porta de entrada para a música internacional. Algumas canções simplesmente acompanhavam a trama. Outras acabavam se tornando parte da memória de quem assistia.

“Cherish” pertence ao segundo grupo.

E agora, ouça Cherish outra vez

Depois de conhecer sua trajetória, talvez seja impossível escutar “Cherish” exatamente da mesma maneira.

Você pode lembrar de Andréia.

Pode lembrar de 1986.

Pode lembrar do Kool & The Gang.

Pode pensar nas Bahamas, onde a composição ganhou forma.

Pode lembrar que aquela balada chegou ao topo das paradas internacionais antes de atravessar a televisão brasileira.

Mas existe algo maior em tudo isso.

Uma música que nasceu para falar sobre aquilo que merece ser valorizado acabou se tornando, ela própria, algo que merece ser guardado.

E talvez seja essa a razão pela qual seus primeiros acordes ainda conseguem abrir uma porta para o passado.

Não para que voltemos a 1986.

Mas para lembrar quem éramos quando aquela música chegou até nós.

🎧 Ouça a trilha sonora desta história

“Cherish” faz parte da programação da Rádio Planeta Saudade.

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Preservando a memória da música, uma história de cada vez.


Fontes e referências

  • Memória Globo — trilha sonora e personagens de Cambalacho.
  • Official Charts — desempenho de “Cherish” no Reino Unido.
  • Billboard / registros históricos de paradas — desempenho americano de “Cherish”.
  • SongwriterUniverse — entrevista com Ronald “Khalis” Bell sobre a composição e o período no Compass Point Studios.
  • AllMusic — informações sobre “Cherish”, Emergency e a produção da gravação.
  • Rock & Roll Hall of Fame / Associated Press — trajetória e reconhecimento histórico do Kool & The Gang.
  • The New Yorker — trajetória dos integrantes e a evolução artística do grupo.

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