P.M. Dawn: a história de “Set Adrift on Memory Bliss”, o clássico que levou a memória dos anos 80 para o topo da Billboard nos anos 90

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Como Prince Be transformou elementos de “True”, do Spandau Ballet, em uma das músicas mais singulares de 1991 — e acabou fazendo história justamente na primeira semana da nova era de medição da Billboard.

Algumas músicas começam como novidade e terminam como memória

Há músicas que, quando voltam a tocar, parecem abrir uma porta para uma época inteira.

“Set Adrift on Memory Bliss”, do P.M. Dawn, é uma delas.

Os primeiros segundos trazem uma familiaridade difícil de explicar. Há alguma coisa ali que parece ter vindo de outro lugar, de outra década. E veio mesmo.

Em meio à atmosfera suave da gravação, o ouvinte encontra a lembrança de “True”, clássico do Spandau Ballet de 1983. Mas encontra também outras referências musicais, transformadas e reorganizadas dentro de uma linguagem completamente diferente.

O resultado foi uma das gravações mais particulares do início dos anos 90.

Lançada em agosto de 1991 como o segundo single do álbum de estreia Of the Heart, of the Soul and of the Cross: The Utopian Experience, “Set Adrift on Memory Bliss” levou o P.M. Dawn ao primeiro lugar da Billboard Hot 100 em novembro daquele ano.

E existe uma coincidência histórica extraordinária por trás daquele nº 1:

a música foi a primeira a ocupar o topo da Hot 100 depois que a Billboard passou a utilizar a nova metodologia baseada nos dados de vendas do Nielsen SoundScan e de execução radiofônica do Broadcast Data Systems.

Uma música construída a partir de memórias musicais acabou, portanto, marcando também uma mudança na maneira como a indústria passou a medir o sucesso.


O P.M. Dawn queria fazer música de outro jeito

O P.M. Dawn nasceu em Nova Jersey pelas mãos dos irmãos Attrell Cordes, conhecido artisticamente como Prince Be, e Jarrett Cordes, o DJ Minutemix.

Desde o começo, o grupo não parecia interessado em seguir exatamente o caminho que o público esperava de uma dupla de hip-hop.

Havia rap, mas havia também R&B, pop, soul e uma atmosfera quase psicodélica.

A voz de Prince Be tinha um caráter contemplativo, distante da agressividade que muitas vezes era associada ao rap daquele período. As músicas podiam falar de relacionamentos, memória e espiritualidade sem abandonar a cultura hip-hop.

Essa combinação ajudou a criar uma identidade própria.

Quando “Set Adrift on Memory Bliss” apareceu, portanto, ela não parecia simplesmente mais uma música de rap tentando chegar ao rádio pop.

Parecia outra coisa.

E era justamente essa diferença que chamava atenção.


O caminho até o primeiro álbum

A trajetória do grupo até o sucesso também foi pouco convencional.

Depois de chamar a atenção da Gee Street Records, o P.M. Dawn foi levado a Londres em 1990 para trabalhar nas gravações de seu primeiro álbum.

Durante esse processo, porém, a Gee Street enfrentou dificuldades financeiras. A operação da gravadora e o contrato do grupo acabaram passando para a Island Records.

O álbum de estreia finalmente chegou em 1991 com um título tão incomum quanto a música que faria o grupo ser conhecido mundialmente:

Of the Heart, of the Soul and of the Cross: The Utopian Experience.

Foi desse trabalho que saiu “Set Adrift on Memory Bliss”.

A música seria o ponto de encontro entre tudo aquilo que tornava o P.M. Dawn diferente.


A lembrança de “True”

A história começa a ficar especialmente interessante quando prestamos atenção àquilo que já conhecíamos antes mesmo de saber que conhecíamos.

“Set Adrift on Memory Bliss” utiliza elementos de “True”, do Spandau Ballet.

A música britânica havia sido lançada em 1983 e se tornara uma das gravações mais reconhecíveis daquela década.

O P.M. Dawn pegou aquela sonoridade e a colocou dentro de uma nova paisagem.

Não se tratava apenas de repetir uma música conhecida.

Era uma transformação.

A melodia e os elementos associados a “True” passaram a conviver com uma produção hip-hop, uma batida discreta e a interpretação de Prince Be.

A familiaridade permanecia, mas o contexto havia mudado.

E essa talvez seja uma das melhores maneiras de entender o trabalho do P.M. Dawn:

eles não trataram o passado como algo intocável. Transformaram-no em matéria-prima.

O crédito de composição ficou com Attrell Cordes e Gary Kemp, compositor de “True” e integrante do Spandau Ballet.


Mas “True” não é a única música escondida ali

É aqui que uma história aparentemente conhecida ganha uma nova camada.

A construção de “Set Adrift on Memory Bliss” incorpora elementos de pelo menos outras duas gravações importantes:

“Ashley’s Roachclip”, dos Soul Searchers, de 1974, e a versão de “Take Me to the Mardi Gras”, gravada pelo pianista Bob James em 1975 a partir da composição de Paul Simon.

“True” fornece a referência mais imediatamente reconhecível.

Mas os outros elementos ajudam a construir a atmosfera e o movimento da gravação.

É um detalhe importante porque mostra como funcionava uma parte da linguagem musical do hip-hop daquele período.

Uma música podia carregar várias épocas dentro dela.

Funk dos anos 70.

Pop dos anos 80.

Hip-hop dos anos 90.

Tudo convivendo em pouco mais de quatro minutos.


O detalhe que os créditos revelam

Os créditos da gravação também ajudam a entender que aquele som não surgiu simplesmente de uma colagem automática de referências.

A produção foi creditada ao P.M. Dawn, e os créditos de gravação registram Larry “Rock” Campbell na produção adicional, além de gravação e mixagem realizadas no Battery Studios, em Nova York. Os créditos também atribuem a Campbell todos os instrumentos da gravação.

Isso merece atenção.

Quando ouvimos “Set Adrift on Memory Bliss”, é fácil imaginar que tudo aquilo seja apenas resultado dos samples.

Mas havia uma construção musical por trás deles.

Os elementos antigos eram matéria-prima.

A produção precisava organizá-los, criar espaço para a voz, estabelecer o ritmo e fazer com que referências de épocas diferentes funcionassem como uma única música.

É aí que os créditos deixam de ser uma lista de nomes e passam a contar parte da história.


Gary Kemp: uma composição dos anos 80 encontrou uma nova vida

Gary Kemp havia escrito “True” para o Spandau Ballet.

Anos depois, seu nome apareceria novamente associado a uma música de outro gênero, outra geração e outro cenário musical.

O crédito não é apenas uma formalidade jurídica.

Ele registra uma conexão entre duas músicas separadas por oito anos.

“True” nasceu em 1983.

“Set Adrift on Memory Bliss” chegou em 1991.

E, entre uma e outra, uma composição atravessou uma mudança de década sem perder sua capacidade de ser reconhecida.

É uma das coisas mais fascinantes da história dos samples:

uma música pode continuar vivendo mesmo depois de deixar de ser a música que originalmente era.


Tony Hadley também atravessou essa ponte

A conexão com o Spandau Ballet não ficou restrita ao áudio.

Tony Hadley, vocalista do grupo britânico, aparece no videoclipe de “Set Adrift on Memory Bliss”. O vídeo foi dirigido por Mark Pellington.

A participação cria uma espécie de passagem visual entre as duas obras.

O cantor associado à gravação original de “True” aparece agora dentro da nova interpretação construída pelo P.M. Dawn.

É uma imagem curiosa porque resume a própria história da música:

os anos 80 não foram apagados.

Foram incorporados aos anos 90.


E então aconteceu algo histórico na Billboard

Até aqui, já teríamos uma boa história.

Mas “Set Adrift on Memory Bliss” ganhou uma importância adicional por causa do momento em que chegou ao topo das paradas.

Na edição da Billboard referente à semana encerrada em 30 de novembro de 1991, “Set Adrift on Memory Bliss” aparece oficialmente como nº 1 da Hot 100, com uma semana no topo. A mesma edição registra que os dados eram compilados com informações fornecidas pelo SoundScan e pelo Broadcast Data Systems.

A mudança era profunda.

O SoundScan passou a fornecer dados eletrônicos de vendas, permitindo uma contagem muito mais baseada nas vendas efetivamente registradas.

O BDS, por sua vez, fornecia acompanhamento eletrônico da execução nas rádios.

A Billboard entrava em uma nova era.

E a primeira música a ocupar o nº 1 sob essa nova metodologia foi justamente “Set Adrift on Memory Bliss”.

É uma daquelas coincidências que parecem ter sido planejadas pela história.

Uma música sobre lembranças inaugurava uma nova maneira de registrar o presente.


Do terceiro lugar ao primeiro

Existe ainda um detalhe interessante nessa transição.

Na última semana do antigo sistema, a música estava em 3º lugar.

Com a estreia da nova metodologia, ela saltou para o nº 1.

A análise histórica do período registra que, sob os novos dados, “Set Adrift on Memory Bliss” liderava as vendas e aparecia em terceiro lugar na execução radiofônica.

Isso ajuda a colocar o feito em perspectiva.

Não foi simplesmente uma música desconhecida que apareceu do nada no topo.

Ela já vinha crescendo.

A mudança na metodologia apenas revelou uma fotografia mais precisa daquele momento do mercado.

E o P.M. Dawn acabou se tornando o primeiro nº 1 da nova era.


Um sucesso internacional

O sucesso não ficou restrito aos Estados Unidos.

“Set Adrift on Memory Bliss” chegou ao primeiro lugar na Nova Zelândia e alcançou o 3º lugar no Reino Unido. Também entrou em posições importantes em outros mercados internacionais.

Nos Estados Unidos, a música permaneceu uma semana no topo da Hot 100.

E esse detalhe também é importante.

Não precisamos transformar a música em algo que ela não foi.

Ela não precisou permanecer meses em primeiro lugar para entrar na história.

Uma única semana bastou.

Porque aquela semana coincidiu com uma mudança histórica na própria Billboard.


O que havia de tão diferente naquela música?

Talvez a melhor resposta esteja justamente naquilo que ela se recusava a ser.

“Set Adrift on Memory Bliss” não era um rap tradicional.

Também não era uma música pop convencional.

Não era uma simples continuação do som do Spandau Ballet.

E tampouco era apenas uma colagem de samples.

Era uma música de transição.

Tinha o passado dentro dela, mas falava a linguagem do presente.

Essa característica fazia muito sentido em 1991.

Os gêneros estavam se aproximando.

O hip-hop ganhava espaço no grande mercado.

A cultura dos samples permitia que novas músicas conversassem diretamente com gravações antigas.

E o público estava cada vez mais acostumado a reconhecer referências mesmo quando elas apareciam transformadas.

O P.M. Dawn encontrou um lugar exatamente nesse cruzamento.


Quando a memória vira matéria-prima

Talvez seja por isso que “Set Adrift on Memory Bliss” continue funcionando tão bem décadas depois.

Porque sua própria construção fala sobre memória.

A música pega algo familiar e o desloca.

Reconhecemos “True”, mas não estamos ouvindo “True”.

Reconhecemos determinadas texturas e ritmos, mas eles pertencem agora a outra composição.

O passado continua presente, porém transformado.

É uma ideia que combina perfeitamente com a própria experiência de ouvir música depois de muitos anos.

Às vezes não lembramos de onde veio determinado som.

Só sabemos que ele nos leva para algum lugar.

E, no caso do P.M. Dawn, esse lugar tinha um pouco dos anos 70, dos anos 80 e dos primeiros anos 90.


O legado de “Set Adrift on Memory Bliss”

O legado da música não está apenas no nº 1.

Está na maneira como ela demonstra que o hip-hop podia dialogar com referências pop, soul, funk e música instrumental sem perder sua identidade.

Está também na ponte criada entre o Spandau Ballet e o P.M. Dawn.

Uma composição de Gary Kemp, escrita para uma banda britânica em 1983, reapareceu oito anos depois dentro de uma produção americana de hip-hop.

E foi parar no topo da principal parada musical dos Estados Unidos.

Mas existe uma última ironia bonita nessa história.

“Set Adrift on Memory Bliss” é uma música construída a partir de lembranças.

E hoje ela própria é uma lembrança para outra geração.

É assim que a música sobrevive.

Uma canção antiga alimenta uma nova canção.

A nova canção cria novas memórias.

E, algum dia, alguém escuta novamente os primeiros acordes e percebe que aquela música também pertence à sua própria história.


🎵 Você Sabia?

“Set Adrift on Memory Bliss” foi o primeiro nº 1 da Billboard Hot 100 na nova era de medição baseada em Nielsen SoundScan e Broadcast Data Systems.

O feito aconteceu na edição de 30 de novembro de 1991, e a música permaneceu oficialmente uma semana no topo.


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🎧 Ouça a trilha sonora desta história

Depois de conhecer a história por trás desta gravação, que tal ouvi-la novamente?

“Set Adrift on Memory Bliss”, do P.M. Dawn, também faz parte da programação da Rádio Planeta Saudade.

Talvez você encontre a canção tocando por lá e possa reviver essa lembrança no rádio, como nos tempos em que essas músicas faziam parte da nossa rotina.

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